Positividade tóxica: o lado negativo da falsa felicidade

A felicidade exposta nas mídias sociais é na verdade Positividade Tóxica: cuidado para não se espelhar na vida falsamente perfeita dos influenciadores e destruir sua autoestima.

Por Wilson Weigl

Já reparou que hoje todo mundo é super “alto astral”? Entre no Instagram: somos bombardeados com mensagens de otimismo, motivação e felicidade: ninguém sente ansiedade, tristeza, raiva, inveja, medo, tédio… Todo mundo é capaz de superar qualquer situação adversa — separação, solidão, desemprego, doença — com uma atitude “positiva” frente à vida. Nenhuma dificuldade, por pior que seja, abala essa postura de otimismo e fortaleza frente aos perrengues do cotidiano. E se o dia-a-dia hoje não é tão bacana quanto há um tempo atrás, por causa da pandemia, sempre há a possibilidade de postar um #tbt. “Good vibes”, sempre!

Estamos sendo dominados pela Positividade Tóxica, disseminada pelas mídias sociais. Trata-se da falsa crença de que devemos manter sempre uma postura otimista e feliz, não importa quanto dura e difícil seja uma situação. É a negação e a minimização de todo e qualquer estado emocional negativo — porém autêntico  — de todo ser humano.

Nas redes sociais, não é permitido se sentir triste, ter dias ruins ou assumir estados emocionais “pra baixo”

Somos atualmente todos vítimas da Positividade Tóxica. No esforço de ser uma pessoa “good vibe”, que só emana “vibrações positivas”, e de invalidar ou reprimir os sentimentos vistos como “baixo astral”, corremos rico de virar uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Porque os sentimentos reprimidos e negados afetam a saúde mental e, muitas vezes, até o bem-estar físico.

Homem No Espelho - Positividade tóxica o lado escuro das boas vibrações

Nessa realidade definida pelas redes sociais, não é permitido se sentir triste, ter dias ruins ou assumir estados emocionais “pra baixo”. “A psicologia não recomenda que se bloqueie ou evite emoções negativas. Do ponto de vista humano isso sequer é possível”, diz Carla Furtado, mestre em psicologia e fundadora do Instituto Feliciência.

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Ansiedade, depressão, transtornos de imagem (olhar no espelho e se achar feio, gordo ou magro demais) são efeitos colaterais comuns de se deixar enganar pela falsa positividade dos outros nas mídias sociais, onde todo mundo posa de bacana, altruísta, solidário e forte frente aos problemas.

Vários influenciadores conquistam seguidores e admiradores ao mostrar que são pessoas “normais”, com uma vida cheia de chatices, contratempos e problemas, como todos nós. Mas são bem poucos. Outros descobriram o filão de se tornar “manuais de autoajuda” ambulantes, postando dicas de autoestima e autoaceitação — na maior parte das vezes clichês vazios — que buscam apenas mostrar que são pessoas “good vibes” e, assim, conquistar mais seguidores.

Felicidade é a experiência de contentamento e bem-estar combinada à sensação de que a própria vida possui sentido e vale a pena

Não é possível ser feliz sempre. “É importante ressaltar que felicidade não é uma emoção, mas costuma ser confundida com alegria”, afirma Carla. Seundo ela, na Psicologia é usual se adotar o conceito da professora americana Sonja Lyubormisrky, da Universidade da Califórnia: “Felicidade é a experiência de contentamento e bem-estar combinada à sensação de que a própria vida possui sentido e vale a pena”. Em outras palavras, felicidade é um estado no qual se vivencia um pouco mais de emoções positivas que negativas em uma vida que, apesar das circunstâncias, vale a pena ser vivida.

“Um elemento pouco mencionado sobre a felicidade legítima é que ela é uma experiência intrínseca, dispensa o reconhecimento de terceiros. Sorrisos pasteurizados, fotos com filtros, vozes cuidadosamente moduladas e falas que se assemelham a pregações são apenas artifícios, esses sim, tóxicos, daquilo que surgiu bem antes da internet: a vida de fachada e a venda de receitas mágicas”, alerta Carla Furtado.

É justamente assim que surgem problemas como ansiedade, depressão, transtorno de imagem, anorexia e bulimia, entre outros. “Os influenciadores do Instagram mostram que conseguem praticar atividade física, serem pais perfeitos, equilibram trabalho e diversão, são bem-sucedidos e têm hora para tudo. Então as pessoas acham que são obrigadas a fazer isso o tempo inteiro e acabam frustradas porque não conseguem ou se sentem cansadas”, explica a médica psiquiatra Renata Nayara Figueiredo, presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr).

Ela explica que, com a sensação de não conseguir nem chegar perto desse “modelo”, a pessoa fica frustrada, acha que sua produtividade está baixa, que alguma coisa está errada. “Eu não consigo ser o pai presente, o profissional incrível, enquanto o outro consegue tudo isso. Então começa o sentimento de ansiedade, de menos valia, de baixa autoestima, que pode gerar depressão e outros transtornos psiquiátricos”, diz Renata.

Somos todos vítimas fáceis dessa imposição da busca da felicidade a todo custo

Segundo a médica, quem já têm algum distúrbio ou tendência a apresentar um transtorno psicológico é uma vítima fácil dessa imposição da busca da felicidade a todo custo. “Uma pessoa com esse tipo de problema, principalmente em relação ao corpo, vê as fotos dos posts e se sente mal. “Esse tipo de ‘influência’ pode ser um gatilho para pacientes com transtornos alimentares, que vê nos outros o corpo perfeito, a dieta perfeita, a refeição dos sonhos, entre outros pontos”, salienta.

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Para a psiquiatra é importante entender que o conteúdo das redes sociais é um recorte, não expressa a realidade ou como é a vida da pessoa por completo. “Um exemplo é a foto de comida: as pessoas não postam a refeição do dia-a-dia, e sim os pratos elaborados dos restaurantes, para chamar a atenção. É preciso compreender que aquilo é um cenário, um palco, não é uma foto espontânea”, pontua.

Segundo a psiquiatra, os influenciadores também sofrem. “Eles buscam mais seguidores, mais curtidas, sendo que às vezes a pessoa só vive disso, de postar coisas, enquanto as outras vão trabalhar e vão fazer outras coisas também”, afirma. “Então isso tudo é um cenário. Cada um vai postando o que acha mais interessante e as pessoas têm que entender que aquilo ali não é a vida real”, finaliza.

Todos os sentimentos são normais e humanos — não apenas os felizes

A verdade é que você não pode fazer alguém se sentir feliz dizendo-lhe para se animar. Ou, ao contrário, se sentir otimista só porque alguém diz que tem que ser “positivo”. Ninguém é capaz de consertar sofrimento e tristeza com memes. Em vez de repetir citações motivacionais, é preciso se conscientizar de que todos os sentimentos são normais e humanos — não apenas os felizes. O mundo será um lugar muito melhor se conseguirmos nos blindar da Positividade Tóxica do Instagram e assumirmos todo o espectro das emoções humanas — boas e más.

https://www.instagram.com/homemnoespelho/

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